E havia dito num ar de desprezo para si mesma: "não dói", da mesma forma que sempre fazia quando criança em dias de vacina, na intenção de disfarçar seu medo e choro para aquelas pessoas da fila. Não suportava a ideia de deixar transparecer sua fraqueza, e optou por acreditar que a dor que hoje sentia era um tipo de vacina que a tornaria mais forte depois. E de tanto dissimular aquilo que sentia, foi ficando imune à felicidade. Isenta de suspiros, sorrisos e surpresas, ou de qualquer outra coisa que pudesse ter uma duração limitada. Sentia silenciosamente o medo do fim, e tudo que possuía agora era solidez de uma dor que conseguia esconder de todo mundo ao seu redor, menos de si própria. Aquela mesma dor, quieta e disfarçada, que mesmo sem ninguém perguntando, fazia questão de responder o tempo todo: "não dói".
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