Desculpe este mal jeito, mas sinto que se desacelerar posso perder o ritmo, e não conseguirei pronunciar mais nada. Você não precisa me levar a mal, também não precisa me levar a sério caso não consiga, mas não interrompa este meu surto de coragem. Não posso desperdiçá-lo, talvez seja minha última chance de estender minhas mãos e tocar teu rosto antes de você ir embora.
Estamos há tanto tempo parados nessa janela, já falamos sobre a rapidez do tempo e a grandiosidade do espaço, e tudo o mais que possa surgir entre duas pessoas que estão se conhecendo agora. Estou com a sensação de que nos compreendemos bem, que nos (re)conhecemos de qualquer lugar distante, e me perguntando como não havia lhe percebido antes. Neste momento tudo o que preciso fazer é cessar meus pensamentos, levar meus braços até sua cabeça, tocar a curva da sua orelha com a ponta dos meus dedos e encontrar nos teus olhos as respostas de todos os mistérios que ele guarda do mundo.
Por favor, não quebre este silêncio. Não diga nada, congele este momento e me deixe enquadrar esta cena que se formou numa espécie de retrato mental. Quanto tempo vamos conseguir ficar assim? Você não falou sobre suas vontades nem planos depois desta noite, mas seus olhos me convidam o tempo inteiro, e pronunciam silenciosamente o sim que tanto desejo escutar. Meu corpo age como se tivesse vida própria, e eu consigo finalmente alongar as minhas mãos e lhe tocar. Seus traços são agora meu mapa, e meus dedos percorrem seus detalhes feito ruas a trilhar em viagem.
Trago sua respiração em linha reta, a emparelho frente a minha, entreabro minha boca para encontrar a sua, e sinto então todos os nossos gostos de hortelã, cigarro, batom e conhaque virando um só. Lustro tua pele, mastigo tua saliva, afundo em seu abraço, inundo e mergulho de cabeça. Amanhã ainda não sei, nenhum de nós sabe, mas ao menos estamos esquecendo todo o resto que não se faz necessário. Agora apenas prossiga. Façamos de conta que somos nossos primeiros e únicos erros, que o passado não nos pesa, e que já não temos mais medo de nada.
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