Há tempos venho pensado nisso: o Facebook é uma grande ilusão. Massagem no ego, uma montagem de personagens que não existem, estampados nas fotos cuidadosamente escolhidas e até editadas. Deixamos de cultivar amizades presenciais para enaltecer e dar ibope a outros personagens espalhados por essa grande rede, quando a verdade é que não temos mais de dois mil amigos - e o número não chega nem perto. Transformamos as curtidas numa espécie de termômetro de aceitabilidade social, pra medir qualquer coisa que no fundo se traduza em "o quanto sou legal".
Faz tempo que isso me intriga. E percebo o quanto isso nos atravessa, de forma intrínseca e feroz, quando me vejo fazendo a crítica através de uma postagem pelo próprio site. Somos todos produtos, sim, mas também produtores desse sistema que nos engole e nos rouba vida útil.
No fundo, se existe algum ganho nisso tudo é o momento em que encontramos um amigo da rede na rua, e temos a chance de lhe dar um abraço, reparar no seu cabelo desajeitado, no rosto cansado depois do dia de trabalho, nas espinhas que lhe surgiram depois daquela festa que ele com certeza postou as fotos, e ver que dentro de um emaranhado de supostas "desvantagens", ele lhe parece mais encantador do que a imagem que vende.
Não faço aqui uma apologia contra o uso do Facebook. Definitivamente, não é esta a questão. Podemos continuar postando poesias, curtindo livros, selecionando fotos que agradem e compartilhando músicas do Caetano. O importante é entender que não somos somente isso. Isso é apenas parte de um todo, parte essa que não tem pretensão em fazer jus à realidade do sujeito em sua intimidade - muito mais amplo e imperfeito que sua representação virtual. E ainda que carregue em si uma espécie produto deste desejo do que se quer ser, não deixa de ser recorte.
O sujeito e suas faltas é muito mais ordinário que o personagem representado em seu perfil. E é por conta disso que se torna extraordinário, simplesmente por ser real.

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