segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A dimensão do desejo

Toda aquela hipocrisia disfarçada se tornou a principal responsável da sua angústia indescritível. Levava consigo um ascuo imenso dessa dualidade de intenções dos sujeitos, que ora usam uns aos outros, ora amam. Ele, que presava sempre a transparência das relações, e optou diversas vezes pela clareza dos acordos, pela certezas concretas - mesmo que estas remetessem ao nada - percebeu tempos depois que não se trata de sentimentos rasos nem profundos, mas quando a angústia sentida é intensa, você inevitavelmente os trai, amando justamente a sua falta. Foi neste instante súbito que tudo lhe pareceu fazer sentido. Entendeu que a dimensão do seu desejo não era definida pela presença das coisas em si, mas sim pela falta delas que nele operava. Juntou sua sacola, ergueu os ombros e seguiu adiante. Embora ainda fosse um ser desejante, se reconheceu agora incompleto, e desta vez, não lamentou suas ausências.



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