terça-feira, 18 de agosto de 2015

O que me cura

Não há mais o que se faça, já não tem maneira certa, não tem mais forma concreta que o traga de volta, porque ele agora foi embora. Foi embora sem troco, sufoco, correu feito louco, levando com ele o pouco daquilo que sobrou de nós. Foi embora correndo, sem rumo, sedento, desfez-se o momento e os nós que nos prendia. Tudo desenosado. Agora foi embora me deixando aqui com a casa deserta, com essa história incerta e com a oferta entalada, ainda presa à garganta. Mas agora, que me adianta deixar a porta aberta à espera de alguém que, na certa, não volta? E a revolta... A revolta que fica, como é que se tira? Desperdício de tempo, todo o contratempo, quem que paga a conta que o amor deixou aqui? Se foi embora então porque é que ainda afronta?

E a solidão? Que agonia... Essa que abraça, me abraça bem forte, que domina, arregaça, enlouquece e sufoca, de pirraça, feito escolta, me aprisiona e não solta. Não adianta, não tem volta, o amor foi embora. Foi embora e levou com ele a alegria, meus sonhos, meus planos, também as fantasias do carnaval passado, os olhares risonhos, o que de mais belo existia. Mas quem diria! Nada aqui o impedia. Correu, foi pra longe, levo tudo o que podia, o que sua mão segura, e em meio à loucura só esqueceu de levar o que me cura: poesia.

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