sábado, 8 de agosto de 2009

Freud e a Cocaína - Apologia?


Freud usou cocaína com fins terapêuticos, como parte de suas pesquisas em busca de tratamentos eficazes para os distúrbios nervosos. Ele se interessou pela coca como medicamento, e isso num período anterior ao desenvolvimento da psicanálise, quando usou a si mesmo como cobaia em diversas experiências. Na época da obra fundadora A Interpretação dos sonhos (1899), Freud já reconhecia que a cocaína provocava intoxicação e outros efeitos colaterais graves, abandonando seu uso terapêutico.

Freud não era, portanto, "fascinado" pela droga, e nem mesmo escreveu "um livro" sobre o tema, mas três artigos científicos, em épocas diversas, sobre propriedades psicofarmacológicas da substância. Ele menciona, por exemplo, mudanças de humor e percepção, mas ignora o aspecto da dependência, mais tarde cientificamente comprovado e hoje inquestionável. Os textos foram reunidos muito depois por sua filha Anna Freud, no volume The cocaine papers, mas quem tiver a honestidade intelectual de os ler verificará que não se prestam de forma alguma à apologia da droga.

Diversos motivos podem ter levado Freud a rejeitar a cocaína: a suposta morte de um paciente por overdose; o vício de seu amigo Keller, também médico, que emigrou para os Estados Unidos e foi dignosticado como portador de distúrbios da personalidade causados pela cocaína; a observação de que alguns pacientes entravam em convulsão, tinham severas insônias, perdiam o controle sobre o próprio comportamento. Além disso, Freud descobriu que a cocaína injetada não funcionava como um substituto para a morfina, como analgésico, pois o organismo pedia sempre uma dose maior. Por fim, começou a verificar, embora com as limitações da medicina da época, os danos que a droga causa às funções cerebrais e a outros órgãos (fígado, baço, pâncreas, coração, sistema linfático, sistema digestivo, sem falar na perda da ereção e do descontrole emocional).O problema é que boa parte dos usuários é incapaz de perceber em si mesmo qualquer desses efeitos colaterais da cocaína, simplesmente porque perde a noção da realidade.

Freud, aliás, é uma ótima referência no debate sobre a droga, porque este envolve um mecanismo de negação inconsciente de verdades cristalinas, por parte de quem a defende e consome.

3 comentários:

William Wollinger Brenuvida disse...

É a primeira que sai em defesa do Freud. Parabéns pela postagem! Tem algumas coisas que vejo ultrapassadas em Freud, mas nesse aspecto da cocaína eu verifico que ele não teve culpa ou dolo. Eu, ao menos, o absolvo (risos). Foi um grande cara, mas cheio de traumas. Bom, todos nós portamos algum... isentemos também o homem (risos).

Falow Manu!

Anônimo disse...

Muito Bem Manuella!

Parabéns pelo Blog. Estou esperando o seu artigo. Continue com a iniciativa do Blog. Precisamos de espaços como estes.

Grande Abraço

José Júnior

flahmassa disse...

Excelente post. Estive lendo algumas coisas a respeito do assunto, pois a relação entre cocaína e transtornos de personalidade muito me interessa, e pelo que sei Freud chegou até mesmo a contribuir para a psicofarmacologia a partir dos seus estudos.

Tão correto foi em seus estudos, que tais publicações não são nem mesmo relevantes hoje, muito menos foram incluídas em sua grande e famosa obra, que compreende a psicanálise.