segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A nova vida que aguarda

O contorno das costas nuas. Um seio ainda à mostra. Da janela, o vento fresco que invade o espaço vazio do quarto. Vento que leva com ele o cheiro e as lembranças da noite anterior. Roupas ainda espalhadas pelo chão. Lençóis revirados, pernas entrelaçadas. Ainda um resquício de sono. Olhares risonhos e reflexivos. Ainda cúmplices. Na cabeça, perguntas sem respostas Por que aquela noite? Momentos intermináveis de conforto e aconchego. Silêncio total. Segundos de nada. Aquela vontade reincidente de congelar o tempo. De viver para sempre a relatividade do amiúde. Horas e horas representadas por milésimos de segundos. Quantas coisas ali cabem. Agora são apenas dois corpos, resumidos em paz e suor já seco. O suave carinho do toque no caminhar das mãos, percorrendo mil vezes a mesma rota que vai da cintura até o pescoço. Aquele arrepio que dá. O medo de ir embora. A unidade da matéria sendo desfeita aos poucos. A chegada do fim. Tudo voltando aos poucos para os seus lugares, de onde saíram, de onde vieram. O retorno de si. A racionalização tomando o lugar o desejo avassalador, tão inexplicável quanto potente. Na cabeça, a memória de tudo aquilo que não devia se transformar. O amor. Na boca o gosto dele, dela. E o tempo, esse diabo, passando agora como um furacão. As imagens dos bons momentos em flashes. Um beijo no olho. Um deslizar de dedos pela orelha. Qualquer frase que não deveria ser dita, somada à incerteza de estar fazendo o que é certo. O aperto no peito. A dor da perda. O vento da janela e o desejo de se continuar deitado. O abraço apertado para interromper a passagem do frio. E o frio na barriga, que nada tem a ver com o vento da janela. A obrigação de levantar, que por um instante faz toda a demora parecer genial. A vontade do bis. A tentativa de se levantar depressa para enganar preguiça, fracassada pelo puxão suave: de volta à cama. Outro beijo doce, longo. A vontade de ser um só. E de novo a vida, preenchendo o rombo que a falta de tato causou. Olhos nos olhos. O abraço. De novo a paz, curta e infinita. O relógio. O dia que amanhece, o sol que vai entrando pelo friso da janela aberta. Os pássaros, o despertador. A música de fora e de dentro. O último instante antes de se levantar. Tudo feito aos poucos, lentamente. O pensamento de que seria a última vez, a dor e a alegria do legado, a certeza da incerteza do processo. E recompostos, um abraço vestido. A alma vestida de sonhos e medo. Um beijo. A porta. A vontade de um um pouco mais. As mãos soltando aos poucos. O olhar evitativo, o distanciamento sem vontade. O vazio que toma conta de tudo. No corpo, a confusão da serenidade vindo. Na cabeça, o turbilhão que a paz provoca. A saudade. A estranha saudade de se reabitar. E agora, do lado de fora, a nova vida que aguarda.

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